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45 anos de um novo fruto

45 anos de um novo fruto

Repórter: Luís Augusto Pereira

Sales Oliveira foi a segunda cidade do Brasil a receber o Caminho Neocatecumenal

Um único par de sapatos, o chão enlameado e uma lamparina. Sob chuva, atravessavam uma pinguela rumo à Igreja Matriz para receber o querigma (do grego kērygma). Esta é uma das histórias que marcam os 45 anos do Caminho Neocatecumenal no município de Sales Oliveira, o segundo do Brasil a receber o movimento que foi trazido por três estrangeiros.

Naquele momento, a cidade não tinha padre, já que o presbítero local havia abandonado o sacerdócio para se dedicar ao seu próprio matrimônio. Por revolta, somente pouco mais de dez pessoas frequentavam a missa. Mas a “Boa Nova”, o querigma, reuniu 40 fiéis que no decorrer dos anos tornaram-se cerca de 450, divididos em doze comunidades.

No início da década de 1970 na diocese de Franca, à qual pertence Sales Oliveira, faltavam sacerdotes nas paróquias. Por isso, quando o bispo Dom Diógenes recebeu a notícia de que a Paróquia dos Santos Mártires Canadenses, em Roma, estava enviando padres pelo mundo, orientou o então pároco de Orlândia, padre Emílio, a enviar uma carta à capital italiana.

Foi então que na Quaresma de 74, o padre Romano Matrone, a freira Maria de Los Angeles e o leigo Angelo Stefanini chegaram da Itália e apresentaram o novo movimento ao bispo.

“Eu presenciei este encontro”, afirma o primeiro presbítero do Caminho Neocatecumenal do estado de São Paulo, Francisco Milanésio, 75 anos, ou padre Franco. Ele ainda conta que foi também o tradutor, já que os estrangeiros não falavam português. “Apesar de terem aceitado a novidade, o padre Emílio e Dom Diógenes estavam desconfiados, porque nunca haviam ouvido falar sobre o Neocatecumenato”, diz.

Padre Franco durante peregrinação realizada em Poços de Caldas – MG

Na ocasião, padre Romano, um dos estrangeiros, percebendo o sentimento de desconfiança disse que se não fossem aceitos na cidade, iriam para a Bolívia onde tinham sido solicitados. “Disse que sacudiriam a poeira das sandálias e partiriam, o que, naquela época, era uma frase muito forte”, finaliza padre Franco.

A equipe foi aceita e passou a residir em Sales Oliveira e passaram a preparar os fiéis ministrando catequeses na cidade e em mais duas vilas na vizinha Orlândia.

O que é o Caminho Neocatecumenal?

O Caminho Neocatecumenal é uma caminhada de formação cristã que visa chegar à renovação do Batismo. Recebe este nome por parecer com o Catecumenato das primeiras comunidades cristãs, na qual pagãos se preparavam para serem batizados.

Segundo a história o movimento nasceu de uma visão que Kiko Argüelo teve da Virgem Maria, dizendo que era necessário construir comunidades cristãs que se assemelhassem à Sagrada Família de Nazaré, baseadas na humildade, simplicidade e no louvor. Foi então que surgiu o primeiro grupo em Palomeras, uma favela de Madrid, Espanha.

Os primeiros participantes eram cidadãos muito pobres e fugitivos da polícia que se juntaram ao fundador e ex-pintor, Argüelo, e à química Carmen Hernandéz que aderiu ao movimento por, segundo ela, a necessidade de servir a Deus.

Rafaela Camelucci, 15 anos, faz parte da Comunidade 12 (a mais nova) no município de Sales Oliveira e recebeu influência de seus pais e sua avó. “É uma vontade que eu tinha desde pequena, quando ia com a minha avó, porque eu sempre quis ter a minha comunidade”.

Já Joel Francisco Souza, 16 anos, teve como influência, os amigos, que segundo ele, o deixaram curioso. “A maioria da minha roda de amigos é do Caminho, então no final do ano convidei minha irmã para participar”.

Porém, assim como surge o sentimento e a curiosidade para fazer parte do movimento, há aqueles que abandonam a caminhada e optam por buscar Deus em outra realidade, como é o caso de D. Olga Balan.

A dona-de-casa frequentou o Movimento durante treze anos, pois sempre achou que o correto seria criar seus filhos dentro da igreja, já que o “mundo” é um ambiente perigoso. Segundo ela, o Caminho estruturou sua vida, o que classificou como benção.

Contudo, por razões pessoais e maior identificação com o grupo deixou de seguir o Neocatecumenato e passou para o movimento Renovação Carismática.

Indagada sobre a diferença entre o Caminho e a Renovação ela afirma que “em mim foi à fé, além do acolhimento. Me acendeu a fé. No grupo de oração, Deus faz surpresa com a gente. Despertou em mim a ansiedade de frequentar a igreja, as reuniões, saio de lá abastecida.”

Vigília Pascal celebrada pelo movimento Caminho Neocatecumenal
Crédito: Gustavo Carvalho Fotografias

UM MESMO NORTE – Apesar de pertencerem a um mesmo conjunto, o Caminho Neocatecumenal, a Renovação Carismática e a Opus Dei possuem diferenças. Os dois primeiros são movimentos eclesiais, sendo assim, podem possuir ou não regimento próprio, mas são submetidos à hierarquia da Igreja, dependendo da autorização de bispos e padres para poderem “existir”. Além disso, foram criados pós Concílio Vaticano II.

Já a Opus Dei é uma prelazia pessoal. Seus integrantes estão sob a ordem exclusiva do Papa que elege um responsável para comandar e organizar o grupo. No Brasil, quem tem o papel denominado Vigário Regional é o reverendo monsenhor Vicente Ancona Lopez.

O Caminho Neocatecumenal está ligado à valorização e à renovação do batismo. Para os católicos e algumas religiões protestantes é o primeiro sacramento que, segundo a Bíblia simboliza o recebimento do Espírito Santo e a morte do pecado original que é passado desde Adão e Eva, conforme está escrito no livro de Gênesis.

Os três pilares do Movimento são palavra, eucaristia e convivência. Além do chamado tripé, há também as etapas. Todos esses tópicos, segundo os frequentadores, buscam ajudar na conversão.

No Brasil, a primeira Comunidade surgiu em Umuarama, no Paraná, dois meses antes do que em Sales Oliveira, a segunda. Apesar de ter iniciado tempos depois, o grupo salense terminou a caminhada em 2004, antes da primeira do Brasil.

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